Ai que Rica Costa!

Saturday, December 30, 2006

Muñeca, a Perrita Ranger


Este é um texto escrito há algumas semanas atrás, como vão poder perceber, andava perdido num cd e só o recuperei agora. Resolvi publicá-lo, em honra da Muñeca.



Quando cheguei ao Refúgio numa quarta feira por volta das 14 horas, fui recebida por umas quantas ladradelas e um forte abanar de cauda. E assim fomos apresentadas, Muñeca e eu. A Muñeca é uma rafeirinha amarela, a puxar para o texuguito, com uns ternos olhos castanhitos, a namorada ideal para o Lucky… há uns anitos atrás! No encalço da Muñeca, mas em passo mais lento e cansado, apareceu o Bobby. Rafeirote também, preto afogueado, ouvido duro e muito sono. Estes dois canitos seguem-nos para todo o lado. Nao tem um dono em especial, adoptam todas as almas que por aqui passam como dono. Umas mais que outras…

Tudo a postos para mais uma patrulha. Nao é preciso chamar. Ao mínimo sinal de que estamos prontos, e já eles se estao a sacudir alegremente em direcção à praia. E não vão para passear, vão trabalhar. Nao incomodam as tartarugas, são o mais discreto possível, evitam-nas inteligentemente. Quando percebem que vamos esperar pela tartaruga, fazem um ninho na areia e esperam deitados. Se por acaso alguém fica para trás, nao fica sozinho… a Muñeca está lá. Sempre. Acredito mesmo que ela nos esteja a guardar. É uma cadela impecável.

Numa noite em que fizemos apenas uma patrulha às 4 da manhã, deparamo-nos com mais de metade dos ninhos saqueados, ao todo 8 ninhos foram roubados. Quando chegamos a casa, alguém comentou que a Muñeca tinha ladrado muito durante a noite… estava explicado porquê. Por vezes sai disparada a correr e a ladrar para a vegetação que ladeia a praia… talvez tenha sentido uma cobra, ou outro animal qualquer. Pela parte que me toca, gosto muito de ter a Muñeca por perto, não tenho qualquer vontade de ter um encontro imediato com animais rastejantes… e venenosos. Já vi algumas cobras, e inclusivé peguei nelas para a foto da praxe, mas não agressivas nem venenosas, claro.

Quando é para passar o rio, o famoso que por vezes esta com mais caudal do que o desejável, não há corrente que os detenha. Vem sempre a par de nós. Também reparei numa coisa que pode ou nao ter significado… a Muñeca passa o rio sempre a montante de nós. Talvez seja apenas coincidência, talvez não, mas a verdade, é que se houver crocodilos, em princípio estarão a montante. E agora tenho que ser justa para com o Bobby, é um nadador nato. A idade não lhe pesa nada. É um espectáculo vê-lo nadar.

Um dia destes fomos a Esterillos, uma vila que fica a 45 minutos a pé pela praia, comer uma pizza e beber umas cervezas, lá veio a Muñeca atrás de nós, toda contente. E ao nosso lado ficou, na esplanada, deitada refastelada enquanto comiamos. O pior foi para regressar, a maré estava cheia e não dava para ir pela praia, tivemos que arranjar uma boleia. E a Muñeca, como vai? perguntei eu. Vem connosco, responderam naturalmente. Subimos para a caixa da pick-up, enquanto ela olhava para nós la de baixo. Upa Muñeca, já cá estas. Não achou muita piada à ideia de ir de carro, ainda saltou uma vez para baixo, mas à segunda percebeu que era ali que tinha que ir, encostou-se muito bem às minhas pernas e lá fomos nós todos, de cabelos ao vento e cerveza na mão.

Um dia destes estava a dormitar na rede e sinto um suave roçar nas minhas costas… olhei. Era a Muñeca, a pedir mimos.

Saturday, December 16, 2006

Insónia


Uma da manha. Estou a tentar adormecer há duas horas. Tenho taquicardia, sinto cada batimento como se fosse o último. Os olhos nao se fecham, teimam em estar abertos, a olhar para a cama por cima de mim. Viro para um lado, aconchego a almofada, tento nao pensar em nada. Nada. O sono nao vem. Tento a música. Nada. Ansiedade de voltar a casa. Quero ver olhares conhecidos e sentir-me em casa. Tenho saudades do mar de inverno em Espinho, rebelde, agreste. Tenho saudades das ruas estreitas do Porto. Saudades de falar português. Saudades de ter uma refeicao que nao inclua arroz e feijoes. Saudades do Pipa Velha e do Mercedes. Saudades do FCP. Saudades dos meus. Saudades dos meus caes...

Hoje perdi um amigo. A morte levou-o, sem me deixar despedir dele, e isso dói muito. Dói nao ter estado lá, quando ele precisou de mim. Dói nao ter apoiado quem mais o queria e acompanhou na última etapa. Fecho os meus olhos e vejo os dele. Castanho amendoado, doces... como só um cao pode ter. Lucky, tenho saudades tuas. Eu sei, estavas velhote, mas nao devias ter ido assim. Mas agora que foste, e já nao vais voltar, toma conta do Bones e do Tealk, já estao aí há um tempito, diz-lhes que tenho saudades deles, muitas. Diz ao Bones que sinto falta da cauda dele a abanar pela casa toda, da felicidade que ele espalhava por todo o lado. E ao Tealk, faz-lhe umas festas na barriga como ele gostava. Deve estar com o pêlo enorme... E o meu Snoopy. Nao o conheceste, ainda nao tinhas nascido. O meu primeiro cao. Rafeirito como tu, baixote, esperto q.b.. Nao deixava que ninguém nos levantasse a mao, a mim e ao meu irmao. Quem o fizesse, arriscava-se a uma bela duma ferradela e uma ida ao alfaiate para consertar as calcas. Nem mesmo o nosso pai... Morreu velhote como tu... Agora que penso bem, acho que sempre me fizeste lembrar o Snoopy, embora um pouquito mais alto e amarelo em vez de chocolate. Nao te preocupes se me vires chorar Lucky, sao lágrimas de felicidade por te ter conhecido, por termos partilhado tantos e bons momentos. E vou chorar muito, Lucky. Vou sentir a casa mais vazia. É a vida, a nossa e a dos caes.
Beijos

Wednesday, December 13, 2006

Irmaos Metralha

E a tres dias do final da viagem fui roubada. Por um bando de gatunos, crime organizado, do pior que ha por estas bandas. Estava muito descansada a apanhar sol na praia, depois de um belo banho nas águas turquesa do Caribe, e um dos guardas do parque pergunta de quem é o saco azul que esta na árvore, porque acabava de ser roubado. E eu digo, é meu, e comeco a olhar para as copas das árvores à procura dos gatunos... e lá estava ele, agarrado à minha sande de queijo, com aquelas manápolas pequenitas e aqueles olhitos de espertalhao. E atrás dele estavam mais, vieram todos ao chamamento de comida, pelos vistos nao podem ver um saco de plástico... sinónimo de comida. E eu tinha levado o meu farnel num saco plástico, fica de emenda para praias com monos (macacos). E foi uma maravilha ver aqueles macacos todos, empoleirados nos ramos a tentar chegar perto dos sacos. E sao mesmo atrevidos, vieram para o chao, tentaram rondar, mas eu fui mais esperta e comi o resto do farnel antes que ficasse sem nada. Ainda dei um aperto de mao a um deles, ele agarrou-me um dedo com a mao toda, deditos fortes e macios. Sao lindos os macacos. E andam por todo o lado aqui em Cahuita, a vila é mesmo pegada ao Parque Nacional. Hoje acordei com o som dos howler monckeys, estavam numa conversa pegada a umas belas horas da manha... eram 6 da matina.

Passei dois dias no Panamá, cheguei ontem. Estive num local que agora é turístico, mas que mesmo assim é sujo sujo sujo. Basta passar a fronteira e nota-se a diferenca. Nos rostos, na atitude, no lixo nas ruas. E é mais caro que a Costa Rica, por incrível que pareca, pelo menos Bocas del Toro. Da aventura panamense destacou-se um belo passeio de veleiro ao final da tarde, ao largo das ilhas e a rasgar aquelas águas de um azul profundo. Muito bom.


Pura Vida

PS: Feliz Cumpleaños Papá!! Beijoooooooooooooooooooooo

Saturday, December 09, 2006

Adios Tortugas

E a aventura com as tortugas chegou ao fim. Ontem regressei no autocarro das 5h45m a S. Jose, a viagem mais poeirenta, cansativa e longa de todas. Quase 7 horas de estrada e uma nuvem permanente de poeira no interior. Nao me perguntem porque nao fecham as janelas, nao sei responder. Ja estao habituados... Tentei dormir um pouco mas nada, nao encontrava posicao, o pescoco doia e a mochila no meu colo pesava e fazia ainda mais calor. Fui quase todo o caminho a ouvir musica, a minha fiel companheira de viagem.
Acabaram-se as tortugas. Mas espero que so para mim, espero que continuem durante longos e bons anos a navegar por estes oceanos, que recuperem do estado em que o Homem as deixou. Glenn, um australiano que conheci na Playa Langosta, deu-me a conhecer um pouquinho mais da natureza destes maravilhosos animais e do grave problema que enfrentam. Ele nao é biólogo, nao é veterinário, nao tem nenhuma licenciatura em nada, só amor e respeito à Natureza e às tortugas. Veio fazer voluntariado um ano e nao regressou a casa. Ficou no Parque Nacional de Cauhita a lutar contra o Homem que rouba os ovos das tortugas, contra os pescadores que usam redes de arrasto para apanhar marisco e que matam tortugas sem do nem piedade. Elas ficam presas e morrem afogadas... A lutar contra o Homem que come tortugas, que usa a carapaca para fins ludicos... enfim. Ele ficou 2 anos e meio naquele projecto, projectou e construiu um viveiro mais proximo da realidade, tentou implementar o uso em massa de um dispositivo de libertacao de tortugas nas redes dos pescadores, mas eles nao usam. So quando a inspeccao ameaca. E isto é muito raramente.
A Baula, ou leatherback, é o animal que mais migra em todo o mundo, o mais viajado. As Baulas que nascem na Playa Langosta, vao alimentar-se às Galápagos, viajam pela Antártida para encontrar o pai para os seus filhotes ao largo da Malásia e depois à Costa Rica, costa do Pacífico, para deixar os ovos. Isto se nao forem apanhadas ao largo da costa, pelos pescadores de camaroes. Que eu bem via as luzes da praia, enquanto fazia as patrulhas, tanto em Punta Mala como na Playa Langosta. E tentava pensar que o nosso trabalho nao era em vao... Na Malásia nao nascem tortuguitas desde 1998. Porque? Porque eles comem as adultas, e sem femeas e machos nao ha bebés, porque o aquecimento global esta a desiquilibrar a percentagem de nascimentos de femeas e machos. Para as Baulas, o ninhos que estao a temperaturas superiores a 29.5 dao femeas, abaixo desta temperatura nascem machos. Eu medi temperaturas todos os dias, e quase todas eram superiores a 30 graus. O que vai acontecer é que um dia a Baula femea vai chegar à Malásia e nao vai ter macho para lhe fecundar os ovos. Nao é triste? Glenn, nao baixou os bracos, construiu um viveiro com duas seccoes, uma com sombra e outra com sol. Para tentar controlar a temperatura dos ninhos. E esta a funcionar. Mas isto em Cahuita, costa caribeña. Ele diz que nao sabe porque os biólogos na costa do pacífico nao o estao a fazer.
Por cada 2500 Baulas bebés libertadas sobrevive uma. Para as Lora a percentagem é ainda mais chocante, uma em cada 10000. Eu penso que no caso das Lora, os projectos de Conservacao ajudam a aumentar o número de sobreviventes, pelo menos evitamos que elas sejam comidas pelos predadores terrestres e voadores antes de chegarem ao mar. O resto é com elas, tem que sobreviver aos tubaroes, em Punta Mala aos crocodilos tambem, aos grandes peixes, aos pelicanos... e ao mais temível de todos os predadores, o Homem. Um longo caminho até serem adultos e poderem completar o ciclo natural da vida. Eu ficava triste quando pensava nisto enquanto libertava tortuguitas, por vezes eram 800 de uma vez, mas eu recordava os números e pensava que,na melhor das hipóteses, uma sobreviria. Triste, nao?
Dia 15 vou tentar visitar a Maia, que é um jaguar femea que foi criada desde bebé numa extensao do zoo de S. José. O meu coordenador conhece a directora do Zoo e disse que ia falar com ela para eu visitar as instalacoes. Estao a tentar fazer reproducao em cativeiro, o jaguar já é uma espécie ameacada de extincao aqui na Costa Rica. Mais uma. Triste nao?
Bem, agora coisas alegres. Acabou o trabalho com as tortugas mas nao acabaram as aventuras. Viajo hoje para a costa caribeña, Cahuita, e amanha para o Panamá, Bocas del Toro. Estou ansiosa por regressar às águas turquesa e cálidas do Caribe! Vou visitar o Parque Nacional de Cahuita, um dos mais bonitos da Costa Rica (e é de borla!), fazer o sendero submarino, que é um trilho subaquático ao longo do recife de coral (snorkling), ver mais macacada e tucanos, beber mais umas cervezas (Paulo! Esqueci-me de te responder à questao das cervejas, recomendo a Imperial ou Bavaria negra), e disfrutar os últimos dias de calor por aqui, porque ouvi dizer que tem estado um tempo insuportável pelo Porto!
Beijos e Pura Vida!
Rita

Tuesday, December 05, 2006

A Minha Primeira Baula!!

E a quinta noite, vi uma Baula. Estava a ser uma patrulha divertida, tinhamos comecado as 8 da noite, estava mare baza, o que e optimo para caminhar, e um luar incrivel, espelhado no mar a lembrar prata. Apesar de ainda nao termos visto nenhuma Baula ate essa noite, a nossa esperanca continuava intacta. O Luis, o guarda parques que nos acompanhava essa noite, continuava com as suas historias de fantasmas, segundo ele houve alguns voluntarios que viram uma mulher fantasma a caminhar no bosque ao fundo da praia, onde termina a zona de patrulha. Ha uns que se pelam de medo, e claro que nos tinhamos que pregar uma partida a patrula seguinte. Quando chegassem ao final iam encontrar uma mensagem na areia molhada, em letras garrafais, HELP ME... REDRUM e letras ao contrario ao estilo Shining, eheheh. E eu ainda fiz uma pegadas a correr para o meio do bosque e a desaparecer no meios das arvores. Bem, mas nao estavamos contentes e queriamos mais. Resolvemos fazer uma Baula falsa, de modo que ao longe se visse o rastro e a sombra da tortuga na zona da areia seca, a fazer o ninho. Fizemos uma tortuga de troncos e arbustos e um rastro que se via a 200 metros de distancia. Continuamos a caminhar, e vimos uma sombra na areia, ao longe. O Luis disse, uma Baula! e eu disse, No es nada, descrente, es muy pequena para uma Baula, deve ser uma Lora. E fomos aproximando, e o meu coracao comecaou a bater mais rapido porque de facto era grande. Quando vi as linhas longitudinais na carapaca desatei aos saltos de contente, eu e a Megan pareciamos duas criancas, tudo isto em silencio, claro, nao queriamos assustar a tortuga. Era impressionante, linda, a carapaca brilhava ao luar, nao tinha cicatrizes, era perfeita. Ela estava a fazer a cama para o ninho, nos estavamos sempre atras, moviamo/nos ao ritmo dela. Comecou a escavar o ninho, e digo mais uma vez, e impressionante como elas conseguem fazer os ninhos com as barbatanas traseiras, um espectaculo. O Luis disse que ela nao ia conseguir, estava num sitio com areia muito dura, e assim foi, passados uns vinte minutos desistiu. Ohhh, espero que nao se va embora, disse eu... mas nao, a mae Baula nao ia desistir facilmente, arrastou/se uns metros para outro lado, mais acima, e desatou no mesmo ritual. Sentamo/nos atras a apreciar. Parece mesmo um dinossauro, diz a Megan. Desta vez conseguiu e regalou/nos com ovos. Eu estava encarregue de lhe tirar as medidas biometricas, o que era excelente porque a ia tocar! Um metro e trinta e nove de comprimento e um metro e quatro de largura, isto a carapaca. Aproveitei e toquei os ombros, fortes, musculados, uma pele que nao consigo descrever agora. A carapaca era macia, couriacea, por isso e a leatherback, brilhava ao luar, um momento unico. Enquanto estao a por os ovos elas entram num transe em que nos possibilita fazer isto tudo, ja nada as pode parar. Verificamos se tinha microchip, e sim, ja tinha sido marcada, era uma das nossas. Eu sentei/me a ver o resto, queria ve/la a entrar no oceano. Com aquelas barbatanas enormes que tem deve ser uma excelente nadadora, e de facto em poucos segundos, desde que entrou na agua, desaparaceu.

Eu levei os ovos, pesados como o caracas, queria fazer o ninho e ser a mae destes bebes. Setenta e oito ovos ferteis e cinquenta e quatro inferteis. Espero que se safem todos, este ninho fica no viveiro, abrigado dos mapaches que a noite andam a predar alguns ninhos naturais que ficam ao longo da praia. Daqui a umas semanas vou ter noticias destas tortuguitas, espero que boas!

Pura Vida!

Rita