Adios Tortugas
E a aventura com as tortugas chegou ao fim. Ontem regressei no autocarro das 5h45m a S. Jose, a viagem mais poeirenta, cansativa e longa de todas. Quase 7 horas de estrada e uma nuvem permanente de poeira no interior. Nao me perguntem porque nao fecham as janelas, nao sei responder. Ja estao habituados... Tentei dormir um pouco mas nada, nao encontrava posicao, o pescoco doia e a mochila no meu colo pesava e fazia ainda mais calor. Fui quase todo o caminho a ouvir musica, a minha fiel companheira de viagem.
Acabaram-se as tortugas. Mas espero que so para mim, espero que continuem durante longos e bons anos a navegar por estes oceanos, que recuperem do estado em que o Homem as deixou. Glenn, um australiano que conheci na Playa Langosta, deu-me a conhecer um pouquinho mais da natureza destes maravilhosos animais e do grave problema que enfrentam. Ele nao é biólogo, nao é veterinário, nao tem nenhuma licenciatura em nada, só amor e respeito à Natureza e às tortugas. Veio fazer voluntariado um ano e nao regressou a casa. Ficou no Parque Nacional de Cauhita a lutar contra o Homem que rouba os ovos das tortugas, contra os pescadores que usam redes de arrasto para apanhar marisco e que matam tortugas sem do nem piedade. Elas ficam presas e morrem afogadas... A lutar contra o Homem que come tortugas, que usa a carapaca para fins ludicos... enfim. Ele ficou 2 anos e meio naquele projecto, projectou e construiu um viveiro mais proximo da realidade, tentou implementar o uso em massa de um dispositivo de libertacao de tortugas nas redes dos pescadores, mas eles nao usam. So quando a inspeccao ameaca. E isto é muito raramente.
A Baula, ou leatherback, é o animal que mais migra em todo o mundo, o mais viajado. As Baulas que nascem na Playa Langosta, vao alimentar-se às Galápagos, viajam pela Antártida para encontrar o pai para os seus filhotes ao largo da Malásia e depois à Costa Rica, costa do Pacífico, para deixar os ovos. Isto se nao forem apanhadas ao largo da costa, pelos pescadores de camaroes. Que eu bem via as luzes da praia, enquanto fazia as patrulhas, tanto em Punta Mala como na Playa Langosta. E tentava pensar que o nosso trabalho nao era em vao... Na Malásia nao nascem tortuguitas desde 1998. Porque? Porque eles comem as adultas, e sem femeas e machos nao ha bebés, porque o aquecimento global esta a desiquilibrar a percentagem de nascimentos de femeas e machos. Para as Baulas, o ninhos que estao a temperaturas superiores a 29.5 dao femeas, abaixo desta temperatura nascem machos. Eu medi temperaturas todos os dias, e quase todas eram superiores a 30 graus. O que vai acontecer é que um dia a Baula femea vai chegar à Malásia e nao vai ter macho para lhe fecundar os ovos. Nao é triste? Glenn, nao baixou os bracos, construiu um viveiro com duas seccoes, uma com sombra e outra com sol. Para tentar controlar a temperatura dos ninhos. E esta a funcionar. Mas isto em Cahuita, costa caribeña. Ele diz que nao sabe porque os biólogos na costa do pacífico nao o estao a fazer.
Por cada 2500 Baulas bebés libertadas sobrevive uma. Para as Lora a percentagem é ainda mais chocante, uma em cada 10000. Eu penso que no caso das Lora, os projectos de Conservacao ajudam a aumentar o número de sobreviventes, pelo menos evitamos que elas sejam comidas pelos predadores terrestres e voadores antes de chegarem ao mar. O resto é com elas, tem que sobreviver aos tubaroes, em Punta Mala aos crocodilos tambem, aos grandes peixes, aos pelicanos... e ao mais temível de todos os predadores, o Homem. Um longo caminho até serem adultos e poderem completar o ciclo natural da vida. Eu ficava triste quando pensava nisto enquanto libertava tortuguitas, por vezes eram 800 de uma vez, mas eu recordava os números e pensava que,na melhor das hipóteses, uma sobreviria. Triste, nao?
Dia 15 vou tentar visitar a Maia, que é um jaguar femea que foi criada desde bebé numa extensao do zoo de S. José. O meu coordenador conhece a directora do Zoo e disse que ia falar com ela para eu visitar as instalacoes. Estao a tentar fazer reproducao em cativeiro, o jaguar já é uma espécie ameacada de extincao aqui na Costa Rica. Mais uma. Triste nao?
Bem, agora coisas alegres. Acabou o trabalho com as tortugas mas nao acabaram as aventuras. Viajo hoje para a costa caribeña, Cahuita, e amanha para o Panamá, Bocas del Toro. Estou ansiosa por regressar às águas turquesa e cálidas do Caribe! Vou visitar o Parque Nacional de Cahuita, um dos mais bonitos da Costa Rica (e é de borla!), fazer o sendero submarino, que é um trilho subaquático ao longo do recife de coral (snorkling), ver mais macacada e tucanos, beber mais umas cervezas (Paulo! Esqueci-me de te responder à questao das cervejas, recomendo a Imperial ou Bavaria negra), e disfrutar os últimos dias de calor por aqui, porque ouvi dizer que tem estado um tempo insuportável pelo Porto!
Beijos e Pura Vida!
Rita

2 Comments:
É triste,sim!Verificar que somos predadores.E mais triste é verificar que, placidamente, continuamos a verificá-lo!Com excepções que se a todos nos honram a todos acusam também!Baixemos pois os olhos.De vergonha.Por um momento.E levantemo-nos! Para mudar!Agora! Já!É que vai sendo tarde....!E as marés vão rareando...
Bj
tás aí tás aqui...
aproveita bem esses últimos dias "de verão"...
estamos todos de braços abertos para te receber e nos transmitir um pouco desse sol que te ocupa a alma.
quanto aos numeros que reportas de facto é preocupante mas pensa que o trabalho que fizeste pode ser uma gota no oceano mas faz a diferença...
bem por dentro das carapaças duras há um coração que te estará sempre agradecido.
para além da vida que experimentaste proporcionaste pura vida também
beijo grande P
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